De três, o primeiro personagem a falar foi uma mulher


Por A.B

Em uma tarde cinzenta de uma terça-feira do mês de março, recebi a incrível missão de encontrar um soropositivo disposto a falar sobre o tratamento oferecido pelo governo local aos infectados pelo vírus da AIDS.
Com a pauta na mão eu e minha equipe nos dirigimos a uma instituição filantrópica que cuida desses pacientes. Levamos três horas para chegar ao local de difícil acesso, ao chegar à primeira impressão é que estão isoladas do resto do mundo. Para ser mais claro, a pequena “vila” fica dentro de um vale em um núcleo rural, lá não se tem acesso ao mínimo de conforto. O esgoto corre a céu aberto pelas valas e é lançado diretamente no córrego ao lado, o cheiro é horrível.
Já a água chega por meio de mangueiras. Até hoje ninguém sabe a procedência da água de cor amarela e com o gosto salgado que se bebe no lugar. Ainda sobre instalações sanitárias básicas, fica aqui mais um registro. Atualmente existe apenas um sanitário para os 130 portadores do vírus HIV atendidos na instituição.

A busca pelo melhor personagem

Tremulo,incrédulo e com pouco tom anunciei o motivo da minha presença. “Preciso de três depoimentos sobre como o governo está apoiando o tratamento de vocês”. Entre apertos de mão e muitos abraços tive que repetir por cinco vezes meu desejo. Instantes mais tarde, resolvi tomar a liberdade e comecei a selecionar algumas pessoas para  a fase de perguntas.
Na primeira questão, todos responderam a partir da terceira os olhares começaram a correr e com eles o jogo que tentava sortear na marra quem deveria responder a próxima pergunta. No meio da desordem resolvi tomar uma decisão enérgica. “ Gente calma, precisamos nos organizar. Vamos fazer diferente, quem gostaria de começar a falar?”,perguntei.
No meio dos três, eis que surge uma voz debilitada e ao mesmo tempo doce, transparente,calma e com uma imensa vontade de colocar para fora tudo aquilo que lhe transtornava.Maria tem 35 anos de idade,antes da manifestação do vírus era secretária em uma grande companhia. Dos três de um grupo de sete, ela foi a única a contar sua história.

      “Eu me infectei com um namorado, há mais de dez anos. Cheguei a alertá-lo algumas vezes para que usássemos preservativos, tentei conversar sobre o HIV, mas ele nem deu importância. Ele, era muito machista, achava que AIDS era doença de homossexuais e que usar camisinha seria como confessar que ele era gay. Eu comecei a manifestar os sintomas sem saber que estava infectada. Durante quatro anos, fui ‘cobaia’ de todos os tipos de antibióticos. Como eu tinha uma gripe ou resfriado sérios praticamente a cada dois meses, com febrão, pneumonia e tudo mais, eu resolvi me tratar diretamente com um pneumologista. Depois de tanto tempo eu comecei a brincar que, se uma pneumonia não me matasse, eu teria câncer pelo efeito da radiação, tantos eram os raios X de pulmão que tive de fazer durante esse período. Também tive vários furúnculos, que tratei com dermatologista. Tudo isso já eram sintomas do HIV e nenhum médico que me tratou pediu um exame de HIV durante todo esse tempo.
Um belo dia, eu fui dormir me sentindo bem e, no dia seguinte, acordei com 40 graus de febre, incapaz de me levantar da cama, mas sem nenhum sintoma de gripe. Pedi à minha irmã que fosse me ajudar e, alarmada, ela entrou em contato com o médico que a atendia. Ele recomendou que eu fosse internada e, no hospital, descobriram que eu estava com pneumonia dupla. Fui para o CTI e sequer conseguia respondia às perguntas do médico.
Lá, o médico observou que um dos meus furúnculos não havia se curado completamente e pediu uma biópsia. Foi durante essa biópsia que descobriram que eu estava com infecção por HIV em estágio avançado.Eu não quis contar à minha família como havia contraído o HIV, eles nunca souberam desse meu relacionamento e não vi motivos para contar quatro anos após o fim do namoro. Então, aproveitei para ‘encaixar uma transfusão de sangue’ (risos) em uma cirurgia que tive de fazer alguns anos antes para justificar o contágio. Mesmo com as tantas dificuldades tento levar uma vida normal. Não fico pensando na doença”,finalizou.
Do inicio ao fim do depoimento a imagem de Maria era sensata. Sua história era retratada como uma cena de um filme, sem pausa sem choro e sem dor. Aquele seu suspiro no final foi interpretado por mim de forma errônea ela não estava desabafando. Ela estava se despedindo, no dia seguinte Maria morreu. Há relatos de que ela me deixou um abraço de boa sorte e de esperança.Sempre quando eu te desejar boa sorte saiba que tem um pouco da Maria nas minhas palavras.

 

Um forte abraço e boa sorte!

DF – 10 de abril de 2009

 

·         Para preservar a imagem do personagem optamos por não usar seu nome verdadeiro.

·         Para preservar a identidade dos pacientes, optamos por não citar o nome da instituição.

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