Boné na hora do almoço


Outro dia, eu estava em um restaurante e na mesa ao lado três rapazes almoçavam, dois deles com boné. Um estava com a aba voltada para trás. Fiquei pensando como os nossos hábitos mudaram nestes últimos anos.

A mesa era um lugar de respeito, onde se sentava para comer com educação e consideração com quem estávamos compartilhando. No tempo dos meus avós, quando uma dama chegava, os homens que estavam à mesa levantavam e aguardavam ela sentar. Não quero voltar ao passado, apesar de achar que boa educação não ocupa lugar. Acredito que perdemos muito nos últimos anos, principalmente em educação e egoísmo. Sentar à mesa com chapéu era totalmente abominável “antigamente”. Hoje, percebo que na maioria dos restaurantes que frequento sempre tem alguém almoçando de boné. Na realidade, minha preocupação é com tudo o que deixamos para trás no que diz respeito à boa educação.

Talvez o boné fique na cabeça porque o dono acha que pode esquecê-lo quando for embora do restaurante. O que poderia ser uma perda irremediável para essa pessoa. E um lucro para a sociedade em que vivemos. Estamos cada dia nos tornando mais egoístas. Não fazemos mais nada que não gostamos e somos capazes de reclamar quando os outros não fazem o que gostaríamos que fizéssemos.

Se olharmos em volta, quase todos os equipamentos modernos nos ajudam a ser cada vez mais individualistas. O famoso MP3, quando foi lançado com tecnologia ultrapassada para os dias de hoje, foi batizado de “egoísta”. Quem usa, e posso garantir são muitos os usuários, ficam alienados do mundo que os cerca, incapazes de perceber quem passa ao lado. A maioria dos jogos de computador permite que possamos jogar sozinhos, e com isso ficamos mais independentes.

Os telefones celulares são uma evolução dos velhos telefones pretos que ficavam em cima das mesas. Lembro que quando queria ter uma conversa sem ser interrompido com um colega de trabalho, eu o convidava para dar uma caminhada em volta da quadra. Hoje, se convidamos alguém para caminhar em volta da quadra para conversar nos chamam de loucos e se essa pessoa aceitar o convite irá certamente com um ou mais celulares, que poderão nos interromper a qualquer momento.

Certo dia, eu precisava falar com o meu chefe. Sentei-me, então, em frente à mesa dele e aguardei para poder falar. Depois de quatro tentativas e quatro interrupções telefônicas, voltei para minha mesa e liguei para ele. Ele me convidou para uma conversa. Educadamente, informei-o que preferia tratar o assunto por telefone. Depois que ele insistiu, expliquei que se eu fosse para a mesa dele provavelmente seríamos interrompidos por outro telefonema que teria prioridade sobre a nossa conversa. Até hoje, não consigo entender por que ele ficou bravo comigo. Uso esse artifício (do telefone) sempre para ter prioridade na conversa.

Estamos rodeados de aparelhos que nos deixam independentes e cada vez mais centrados em nós mesmos. Já cansei de ver casais em restaurante, cada um com seu celular em conversas animadas. Fico imaginando que não devem ter muito para conversar entre eles. Os fones de ouvido sem fio também são muito práticos e podem nos salvar de multas no trânsito, mas é realmente estranho ver alguém conversando no carro ao lado como se estivesse falando com o pára-brisa do próprio carro. Toda vez que vejo alguém fazer uma barbeiragem no carro da frente, descubro que o condutor está falando ao celular. Será que não nos importamos com os outros carros quando atendemos o celular no volante? Se recebermos multa por isso, certamente ficaremos chateados.

Muitos outros produtos modernos estão nos afastando das pessoas que estão ao nosso lado. Não vou falar da televisão, do notebook, do ipod, do smartphone e das outras maravilhas tecnológicas nem dos DVDs que são específicos para os carros. E tenho certeza de que continuaremos almoçando e jantando em restaurantes em que teremos pelo menos alguém de boné. Por favor, se me encontrarem comendo de boné, podem tirá-lo e jogar fora.

Rapha. | Álvaro Larangeira

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