Carta para minha infância


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Querida infância.

Andei me perguntando por onde tu andas, não sei o que fiz para ter ver tão longe de mim, reclusa de meus pensamentos. Algo tão bom como sua criancice não deveria desaparecer de minha recordação, tão pouco se esconder da irrecuperável alma de ser jovem.

Da época em que nasci, algo que me lembro muito bem devido registro de minha certidão, final dos anos 80, até todos os meandros de sua existência, não posso reaver suas canalhices, travessuras e lorotas contiguas. Vivo a imaginar como seria a minha imaginação durante sua existência, período de grandes revoluções, e como ela fez parte de um fabuloso sistema único para a transformação ou passagem para a adolescência. Será que moldastes uma teia impenetrável para bloquear meus pensamentos e assim tentar impedir a reconciliação com minha memória parasita e, consequentemente, esquecida?

Pelos relatos que tenho de vidas alheias tento lembrar das casinhas simples, dos jardins com os infalíveis gerânios, as cidreiras, os louros, o gramado e as varandas, até onde subiam as madressilvas ou a hera, com cadeiras de balanço onde dizem que eu esperava a noite para ouvir as fofocas dos moradores que se juntavam nas portas, sentindo o perfume do jasmim. Disseram-me também que nas calçadas existiam pés de magnólia, jacarandás, amoras, e o toque de cor do fim de tarde.

Onde será que se encontra tamanha proporção de imagens gravadas em minha mente? Passei por tantos “perrengues” que abstive desses retratos mentais no meu “HD”? Responda-me se houver interesse de reconstruir tua própria imagem e semelhança.

Por que não me recordo do canto dos pássaros e das tentativas frustradas de tentar prendê-los nas gaiolas, das pipas pressas nos fios de alta tensão, o pião que nunca fiz rodar, ou das chimbras (bolas de gude) que dizem que eu era muito bom e fazia quebrar com a batida e o juntar dos meus dedos? Tudo são apenas histórias que me contam, nada de concreto, borrões.

Acredito que me esqueci completamente de te, minha alma encantada. Hoje tento resgatá-la, mas creio que seja uma tarefa quase que “impossível”, não é mais viável destroçar e garimpar minha mente a mercê de sua vastidão. Melhor ficar nos relatos, parecem mais ricos aos olhos dos outros, que fazem de você uma importante versão ilustrada do meu ser.

Rapha Fernandes

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