Dar não é Fazer Amor


Dar, desejo profundo de transferir ou ceder gratuitamente o que se possui; doar, presentear. Amor, vocábulo provido de significação contrária de ódio; paixão, coito. Não podemos confundir essa realidade ou simplesmente inverter a ficção das ações. Amor é dom de vida, é eloqüência. De palavra, que cumpre o que promete: pessoa de amor próprio. Dar é prazer, fugir da existência de ser, faculdade natural de não se ter. Simples tentativa deliberada de consumir o exato momento.

Dar, consta no aprimoramento ou andamento a, promover a movimentação ou execução de algum significado simplório sexual ou não, mas de intensa afinidade carnal fortalecida pelos atuais padrões sociais de relacionamento casual. Amor, direito reconhecido a qualquer membro, pessoa. É ministrar, servir; aplicar emoção na veia. Construir laços.

Miller uma vez escreveu: “É preciso dar um sentido à vida, pelo próprio fato de esta carecer de sentido”.

Amor, arte de amar, retórica dos sentidos semelhantes, literatura. Oração, discurso, pregação, doutrina. Dar é medir a intensidade da força, tomar cuidado no que diz e faz. É sentir as vaidades, solicitar permissão para entrar e sair com o máximo de velocidade, ou o direito de simplesmente promover o gosto nas condições previstas pelo regimento interno. É saber fazer, constar, notificar a volúpia oriunda do atrito presente. Amor é fé, crença, testifica, afirmar como verdade, garantir a autenticidade de um relacionamento. Ser suficiente para o outro. Render glórias e louvores, falar baixo no ouvido, sentir a eletricidade envolvida no contato dos olhos, é percorrer  metafisicamente o corpo com energia. Ter vista, objetivo de viver a dois, ter aptidão, vocação para o outro. Dar ouvidos, prestar atenção, acatar. Amor é morrer, morrer por amores, paixões e sentenças. É morte fictícia.

Não existem razões, mas posso afirmar, depois do amor que tive: “Dar não é Fazer Amor”. Assim como Tatiane Bernardi narra em sua própria autoria.

Dar não é Fazer Amor – por Tatiane Bernardi

Dar é dar.
Fazer amor é lindo,
é sublime,
é encantador,
é esplêndido,
mas dar é bom pra cacete.

Dar é aquela coisa
que alguém te puxa os cabelos da nuca,
te chama de nomes que eu não escreveria,
não te vira com delicadeza,
não sente vergonha de ritmos animais.

Dar é bom.
Melhor do que dar, só dar por dar.

Dar sem querer casar,
sem querer apresentar pra mãe,
sem querer dar o primeiro abraço no Ano Novo.

Dar porque
o cara te esquenta a coluna vertebral,
te amolece o gingado, te molha o instinto.

Dar porque
a vida de uma publicitária em começo de carreira
é estressante, e dar relaxa.

Dar porque
se você não der para ele hoje,
vai dar amanhã, ou depois de amanhã.

Dar sem esperar ouvir promessas,
sem esperar ouvir carinhos,
sem esperar ouvir futuro.

Dar é bom, na hora.
Durante um mês.
Para as mais desavisadas, talvez anos.
Mas dar é dar demais e ficar vazia.

Dar é não ganhar.
É não ganhar
um eu te amo baixinho perdido no meio do escuro.
É não ganhar uma mão no ombro
quando o caos da cidade parece querer te abduzir.
É não ter alguém pra querer casar,
para apresentar pra mãe,
pra dar o primeiro abraço de Ano Novo e pra falar:
“Que cê acha amor?”.

Dar é inevitável,
dê mesmo, dê sempre, dê muito.
Mas dê mais ainda,
muito mais do que qualquer coisa,
uma chance ao amor, esse sim é o maior tesão.
Esse sim relaxa,
cura o mau humor,
ameniza todas as crises e faz você flutuar
o suficiente pra nem perceber as catarradas na rua.

Se você for chata, suas amigas perdoam.
Se você for brava, suas amigas perdoam.
Até se você for magra, as suas amigas perdoam.
Mas… experimente ser amada.

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