Roubaram meu porta-cartas: A crônica (ou a cômica) segurança pública em Maceió.


“A primeira coisa que se tem a compreender em relação a essa cidade é que ela é muito pequena. É difícil explicar a alguém procedente de São Paulo, por exemplo, que é possível pegar toda a Maceió e metê-la numa das zonas existentes na capital e ainda ter lugar de sobra para cidades inteiras, como Arapiraca, Coruripe e Delmiro Gouveia.

Maceió é perigosa também, e essa é a segunda coisa que se precisa saber sobre ela. Somos a Capital mais violenta do país, com os maiores índices de homicídios (envolvendo jovens entre 15 a 24 anos) e as maiores taxas de analfabetos e mortalidade infantil do país. Não ligue para os tranquilizadores boletins expedidos pelo gabinete do prefeito ou do  governador.Peça a ele que dê um passeio, sozinho, às duas da madrugada, por qualquer paisagem lunar deserta da cidade, e depois o entreviste em seu leito de hospital na manhã seguinte, para perguntar-lhe sobre taxas de criminalidade mais baixas e melhores partulhas policiais. Ou apenas assista aos primeiros 10 minutos do “Fique Alerta” ou “Plantão Algoas”,  todos os dias na hora do almoço, e ficará sabendo, num piscar de olhos, exatamente o que os habitantes desta cidade são capazes de fazer a outros habitantes desta cidade.”

Adaptado; MacBain, Ed; “Metrópole do Medo: Um romance do 87° DP” – Rio de Janeiro: Editora Record,  2002.

Quando lí pela primeira vez  “Metrópole do Medo”, não demorei muito tempo para assimilar o seu conteúdo com a realidade da nossa cidade. O livro conta a história de uma freira que é encontrada morta em um parque e sobre um ladrão chamado pela imprensa de “O Garoto dos Biscoitos”, pois cada vítima sua recebe um saco com deliciosos biscoitos com pingos de chocolate. O que me prendeu a atenção mesmo, além do diálogo rápido e de fácil assimilação, foi o tom de sarcasmo que os personagens demostram em relação a vida na cidade em que vivem, da mesma maneira que os nossos excelentíssimos senhores governadores tratam nossa cidade e conseguem mais. Pois além do sarcasmo explícito, eles ainda são especialistas em ironia!

Hoje pela manhã, acordei com a notícia de que a portinhola do porta-cartas daqui de casa foi roubada. Eu poderia questionar onde estava a polícia nessas horas, ou mesmo uma daquelas famosas rondas que aparecem diariamente na televisão como símbolo de combate ao crime. Eu poderia questionar a forma como o governador administra a segurança pública do estado, ou até mesmo as verbas destinadas a esse setor. Eu poderia muito bem questionar o paradeiro do nosso querido prefeito (Cadê o Ciço?) que só tem olhos para a parte ”nobre” da cidade, deixando ‘ao-deus-dará’ o resto da população. Eu poderia questionar inúmeras coisas que levaram a nossa cidade a esse declínio… Mas só existe uma coisa que eu realmente quero saber. Céus! O que o ladrão vai fazer com uma portinhola?!

 

Tágore Cavalcante

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