Navegar é preciso; Viver não é preciso.


A primeira vez que li a frase, esta encontrava-se transcrita na camisa do meu tio, quando ainda era criança e frequentemente ia passar os fins-de-semana na casa de praia dos meus avós. Meu tio, ao vir passar as férias em Maceió junto com minha tia (sim, eles são casados, e não se espantem por chamá-los de tios) também costumava passar os finais de semana na casa de praia. Um lugar belíssimo, diga-se de passagem. “Navegar é preciso”, era o que ela dizia. Sempre fui intrigado com isso. Lembro-me de ler e reler inúmeras vezes, encaixá-las em diversas interpretações possíveis, filosofar sobre como o simples ato de juntar letras, formando palavras, e assim frases, podem nos levar a caminhos tão incompreensíveis, e, no fim, chegar a conclusões dedutíveis e até banais, dependendo da forma com que você vê as coisas.  Se o leitor me permitir, e tiver tempo disponível para ler, compartilharei minhas convicções.

Para os que não sabem, a frase do título do post provém do latim (“Navigare necesse; vivere non est necesse“) , dita por um famoso general romano (Pompeu, 106-48 aC.) aos seus marinheiros que, amedrontados, se recusavam a viajar durante a guerra.

A primeira possível interpretação a que o leitor pode chegar, ao analisar fora do contexto, ou seja, somente a frase, é de que o navegar, o ato de explorar o mundo, chega a ter maior importância do que seguir uma vida monótoma, rotineira.

A segunda possível interpretação que caro leitor pode chegar, envolve um olhar mais perspicaz nas entrelinhas, na derivação da forma do ‘como’ e do ‘porquê’  das palavras são usadas. Ou seja, ‘navegar é preciso’  com sentido de que a ciência naval é  uma atividade precisa, já ‘viver não é preciso’, possui sentido de que a vida em si é desprovida somente de um lado lógico, tendo, também, um lado espiritual e emocional.

A terceira possível conclusão que o paciente leitor pode chegar é a de maior complexidade e profundidade interpretativa (na minha humilde opinião, é claro), pois se trata da miscigenação conceitual das duas interpretações anteriores, só que com algo a mais. Analisando o poema de  Fernando Pessoa (que vem logo após as minhas observações), pode se dizer que para enaltecer sua pátria, e ajudar na evolução humana, é desnecessário viver a vida com egoísmo, como se esta fosse somente sua, mas sim empenhá-la  em prol   da humanidade como um todo (sua pátria é o mundo onde vivemos, não o país onde nascemos).

Navegar é preciso

Fernando Pessoa

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
“Navegar é preciso; viver não é preciso.”

Quero para mim o espírito desta frase, transformada
A forma para a casar com o que eu sou: Viver não
É necessário; o que é necessário é criar.

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande, ainda que para isso
Tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso
Tenha de a perder como minha.

Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho
Na essência anímica do meu sangue o propósito
Impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
Para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

@Tahgore /@Blog2Reais

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