Solidão é fera, solidão devora!


5ª aula do dia. Acho fantástico como o tempo costuma passar rápido em certos momentos. A 5ª aula do dia expressa bem isso. Perceba que, quanto mais se aproxima do horário de ir embora, dependendo da aula, mais rápido o tempo passa. Agora é aula de Física. Como odeio essa matéria… Meu relógio mostra que são exatamente 11:45, faltam apenas 15 minutos pra me livrar dessa sala barulhenta e voltar pro conforto da minha cama. Será que ainda falta muito? Olho novamente pro meu relógio. 11:46. Quem precisa de equações pra calcular a dilatação térmica de uma barra de metal, a 30°C, numa cidade que provavelmente nunca pisarei? Tento puxar conversa com a garota do meu lado. A maquiagem pesada não disfarça o cansaço do Carnaval que acabara algumas horas atrás. Não consigo me concentrar no que ela diz. Talvez o barulho dessas pessoas… Mas quem são? Tento encontrar um rosto familiar. Consigo reconhecer duas ou três cabeças, mas espere!, eu as conheço? Qual o nome dos pais delas? Onde moram? Quais seus desejos e ambições? Definitivamente não as conheço. Não conheço ninguém. O céu escurece lá fora, e uma chuva fina cai no jardim do colégio. Estou sozinho. Sozinho no meio de uma multidão. Sozinho como aquela gota de chuva, expulsa do céu, onde fora julgada não ser mais seu lugar, que segue seu caminho mortal em direção ao solo, onde se juntará com outras gotas. Me sinto como aquela gota d’água. Expulsa da minha natureza, caindo numa velocidade estonteante em direção ao desconhecido. Não consigo me desviar desse caminho, apenas sigo o fluxo, e continuo… A gravidade é a corrente que condena a gota d’água ao seu destino. A solidão é a corrente que envolve a minha mente, que permeia meus pensamentos, torna-os obscuros; que invade minh’alma, que incita meus sentimentos, que me transforma, que agoniza, que machuca, e, por fim, atira o que sobrou de mim aos cães negros das memórias passadas, para que dilacerem o que de humano persistia em existir dentro de mim.

Observo o temporal que se formou lá fora. “Putz, como pude esquecer meu guarda-chuva num dia como esse?” Olho para o relógio. São 11:59. O professor já terminara o assunto, mas o barulho da sala ainda me incomoda. Como pode esse punhado de pessoas produzirem tanto incômodo? O sinal toca. Zíperes são fechados, cadeiras arrastadas, vultos divagam até a porta. Eu fico sentado, sozinho, enquanto a chuva, com seu eterno acinzentado, aos poucos também vai embora. Definitivamente, eu estou sozinho.

@Tahgore

Anúncios