Embarcar


Sempre tive uma fascinação inexplicável por barcos. Uma paixão que remonta de anos atrás, quando ainda perguntava ao meu avô o porquê do céu ser azul. Lembro que colecionava-os de todos os tipos: Pequenos, de plástico; Grandes, entalhados em madeira (daqueles que facilmente encontramos em feiras de artesanato); Médios, que habilmente eram colocados dentro de garrafas de vidro e sempre me deixavam com aquela dúvida de como era possível fazê-lo. Porém, de todos eles, meus preferidos eram os Barcos de Competição, aqueles que você pode fazer (ou comprar), colocar um motor com hélices e pilotar por controle remoto. Mas esses barcos eram caros, e, enquanto criança, fiquei apenas na vontade de possuir um.

Os anos passaram, casei, e a minha paixão por barcos nunca diminuiu. Pelo contrário, pode-se dizer que aumentou. Foi por causa dela que resolvi entrar na Marinha, e tornei-me Engenheiro Naval.

Logo após ser transferido do Rio de Janeiro para Alagoas, minha mulher anuncia que está grávida, e que nosso filho nascerá em meados de outubro. Nunca fiquei tão feliz na minha vida! Meu sonho de ser pai se tornaria realidade, e não há nada mais gratificante para um homem do que  construir uma família.

Os meses passaram rápido, mas o tempo foi suficiente para preparar a chegada do meu pequeno Lucas, que logo já estava dando as caras nesse mundão de Deus.

Lucas nunca me deu mais trabalho do que uma criança normal daria. Ele desenvolveu a mesma paixão por barcos que eu tenho,talvez por influência minha, mas isso me deixou extremamente orgulhoso. Eu achava engraçado quando me bombardeava com suas perguntas de criança. Eu, como todo pai, tentava responder, e quando não sabia, inventava! Sim, essas eram as melhores respostas que podia dar. Eu exagerava mesmo, e adorava quando ele corria pra sua mãe perguntar se tudo o que havia dito era verdade.

Quando ele já tinha idade o suficiente, presentei-o com um Barco de Competição. Seus olhos brilharam com o tamanho do embrulho, e suas mãozinhas pequenas, com seus dedinhos curtos e ágeis abriram-no em poucos segundos. Nunca tinha o visto com um sorriso tão grande! Ia de uma ponta a outra da face, fazendo suas bochechinhas ficarem rosadas. Ele deu um pulo de alegria, e saltou nos meus braços, tamanha era a felicidade. Se tivesse deixado, ele teria me abraçado o resto da tarde, mas a vontade (a minha e a dele)  de brincar com o novo barco  foi maior. Não perdemos tempo e fomos logo pra piscina testá-lo. Ficamos lá até anoitecer, quando D. Lúcia disse que dormiria no sofá se não fôssemos Jantar agora mesmo.

As semanas foram passando, e a habilidade do Lucas em pilotar o barco estava cada vez melhor. Era período de recesso escolar, e isso dava muito tempo livre para ele. Soube por amigos que no final de semana haveria uma competição aqui na cidade, a 1ª do gênero, no Lago Artificial ao lado do Posto 7, na praia de Jatiúca. Inscrevi o Lucas assim que ele concordou, entusiasmado, em participar.

No dia marcado, o lugar estava cheio, boa parte eram adolescentes. Alguns barcos já estavam dentro do lago. Rápidos, charmosos, eles corriam de um lado para o outro, fazendo curvas, levantando marolas, encantando qualquer um que por ali passasse.

Naquele momento, no meio de toda a agitação, me senti mais criança que meu próprio filho. Ao ver Lucas estonteante com tudo aquilo, não pude deixar de lembrar da fascinação que desenvolvi por barcos ainda pequeno, principalmente pelos de Competição. Eu não podia tê-los, por serem caros. Mas pude oferecer ao meu filho, e ver o quão feliz ele está por isso compensa qualquer coisa.

Às 14:00 em ponto, todos os competidores já estavam em seus locais. Os barcos estão alinhados e divididos em 3 categorias: Pequenos (de 30cm a 50cm) , médios (de 50cm a 70cm), e grandes (acima de 70cm). Junto com Lucas, outros 5 garotos ficaram na categoria ‘médio’.

A prova é bastante simples: Seguir o percurso determinado por pequenas boias espalhadas por todo o lago, que muda de acordo com a categoria em que o barco se encontra. O competidor que der a volta completa, no menor tempo, será o vencedor.

Por tabela, os primeiros a correr são os barcos pequenos. Achei fantástico observar a disposição de cada um dos pilotos. Alguns estavam em pé, com chapéu e óculos escuros. Outros, sentados em banquetes embaixo de guarda-sóis. E por fim, dois ou três que estenderam uma toalha na grama e ficaram por lá mesmo. A determinação estampada no rosto.

É dada a largada, e 8 pequenos barcos disparam pelo lago.  O reflexo do sol na água deve ter atrapalhado um pouco, já que logo de cara uns 4 ficaram para trás. A parte emocionante da corrida ficou ao encargo dos 3 barcos que disputavam a liderança. A corrida durou uns 20 minutos, e o vencedor foi um barco branco com listras pretas (muito parecido com uma lancha em miniatura), chamado “Au Revoir”. O dono, um adolescente de 15 anos suponho, fez manobras espetaculares, manejou como ninguém os controles, enfim, deu um show! Achei merecido ele ter ganho. Subiu no pódio todo sorridente, carregando seu troféu.

Agora é a vez da categoria do Lucas. Ficamos em uma das tendas que a organização do evento disponibilizou aos competidores, mas ele insistiu em ficar na beira do lago, afirmando que assim seria mais divertido.

Os barcos estão alinhados. Em 10 minutos a posição das boias são trocadas, gerando um percurso diferente. Os 6 competidores estão prontos, esperando o sinal de largada.

6 barcos velozes saem em disparada. Dessa vez o reflexo do sol não atrapalhou os competidores, mas dois barcos ainda ficaram para trás. Lucas estava em 3°. A velocidade não é tudo numa corrida desse tipo. Você tem que saber desviar das marolas produzidas pelos outros barcos, lidar com o vento que sopra forte na beira da praia, e, por fim, manobrar com destreza os controles. Meu filho, apesar de treinar bastante nos últimos meses e ter uma habilidade notável em vários desses aspectos, perdia espaço frente aos outros garotos mais experientes. Ele conseguiu, a muito custo, ficar em 3° lugar nos 5 minutos finais da competição. Faltavam apenas 4 boias para a linha de chegada quando, inesperadamente, o barco que ele havia ultrapassado aproveita uma lufada de vento e o deixa para trás. Pude ver  o sorriso que, a apenas alguns segundos atrás iluminava o rosto do meu pequeno, se esvair. A tristeza que ele sentiu foi tamanha que pude sentir de onde estava, meu coração apertou. Ele havia perdido a corrida.

Fui ao seu encontro. Abracei-o forte, e uma pequena lágrima escorreu em sua face. Não consegui dizer nada. Não havia nada a ser dito. Ele trouxe o barco até a beira do lago, pegou-o e sentou-se num banco do outro lado, perto do Hotel. Quando tentei me aproximar, ele fez um sinal com a mão, como se dissesse: “Prefiro ficar sozinho”. Respeitei a vontade dele.

Ficou lá por uns 10 minutos, até um senhor de meia-idade, usando uma combinação de branco excessivo em suas roupas, que levava seu cachorro pra passear, sentar no ao seu lado. Não estava muito distante do banco, pude ouvir bem a conversa que tiveram.

– Muito bonito seu barco, meu jovem – Disse o senhor.

– Obrigado. – respondeu Lucas com a voz um pouco embargada, sem levantar a cabeça – Gostei do cachorro, é um labrador, certo?

–  Sim, exatamente. O nome dele é Thor. – Disse o homem- Posso supor que estava participando daquela competição no lago, estou enganado?

– Não, senhor.

– Sabe, na sua idade eu também participava de competições. Não existiam essas coisas tecnológicas, como o barco que você carrega, mas tínhamos nossos corpos jovens e muita criatividade – Disse o senhor com um brilho nostálgico nos olhos.

–  Que tipo de competição o senhor participava?

– Das mais variadas! Futebol, Vôlei, Tênis… mas as minhas preferidas eram as de Natação. Eu devia ter mais ou menos a sua idade quando comecei a nadar. Lembro que meu pai me levava para Lagoa Mundaú. Naquela época não era poluída como é hoje, e era mais funda. As águas calmas eram perfeitas para o nado.

– Hum…

Meu pequeno não olhava para mim. Talvez estivesse envergonhado por ter perdido. Senti uma vontade imensa de ir até lá e abraçá-lo, mas algo me dizia para ficar onde estava.

– Você me parece um pouco triste – Disse o senhor enquanto o Labrador tentava se soltar da correia.

– Um pouco sim, pra falar a verdade.

– Tem algo a ver com a competição?

Lucas levantou a cabeça com certo pesar, e olhou diretamente nos olhos daquele senhor de meia-idade pela primeira vez. Demorou alguns segundos até tomar coragem para responder.

– Sim, senhor. Passei os últimos meses treinando, mas acabei perdendo nos minutos finais. O outro garoto foi mais rápido. Eu adoro barcos. Meu pai também. Ele me incentivou a participar dessa competição, e me esforcei ao máximo para ganhar. Não queria tê-lo desapontado…

– Entendo. Não é fácil perder. Mas vou te dizer algo que aprendi nos meus muitos anos de existência, mais do que você pode supor. A vida é uma grande competição. O tempo todo estamos fazendo escolhas que podem nos levar ao topo do pódio, se forem as corretas, ou ao fundo do poço, se forem erradas. Não é fácil discernir o que é correto do que é errado, ou que caminhos devemos seguir para chegar ao nosso objetivo. Existem pessoas que o trilham sem saber o que estão fazendo, indo na cara e na coragem. Outras, baseiam-se nos conselhos dos que por ali já passaram, e tem uma grande chance de chegar lá. O caminho certo nunca é o mais fácil. Temos que aprender com nossos próprios erros, levantar sempre que tropeçarmos, e seguir em frente. Perder faz parte desse caminho. Você não precisa provar pra ninguém do que é capaz, se apenas convencer a si mesmo que é pode superar o que aconteceu. Use a sua força de vontade, agarre-se a ela. O que move o homem é a sua determinação.

Lucas não se moveu. As palavras que o senhor disse pareciam penetrar-lhe a alma, tamanha era a profundidade e a sabedoria delas. Aquele homem estava dando a maior lição de vida que um garoto de 12 anos poderia receber num momento como esse. Aquele senhor não parecia estar falando apenas com uma simples criança desconhecida, mas sim como se o conhecesse a muitos anos. Ele já não parecia tão velho assim, algo havia mudado em suas feições. Se fosse possível, poderia dizer que ele havia rejuvenescido alguns anos. Passaram-se alguns minutos de silêncio até meu filho finalmente falou, com os olhos brilhantes:

– Obrigado.

– Não precisa agradecer, meu jovem A vida te ensinará muito mais, tanto pelo amor, quanto pela dor. Mas, olha!, já está tarde. Preciso voltar pra casa, o pequeno Thor aqui precisa comer. Além do mais, outros filhos meus precisam de mim. Foi um prazer encontrá-lo, Lucas. Até mais!

O senhor levantou-se e seguiu na direção de Cruz Das Almas. Lucas também se levantou e veio até mim.

– Pai, Podemos ir agora?

– Claro.

Segurei na mão dele e fomos até o carro. No caminho de casa, Lucas diz:

– A próxima competição é daqui a 6 meses. Tenho que adaptar meu horário de volta ás aulas com o horário de treinamento.

– Faz muito bem, eu te ajudo com isso. Conheço um lugar ótimo, melhor do que a piscina de lá de casa.

– O senhor não ficou chateado por eu ter perdido?

– Não. Pelo contrário, fiquei orgulhoso.

– Mas como, se não ganhei?

– Pode não ter ganho um troféu para colocar na sua estante, ou uma faixa para pendurar no peito. Mas você me deixou muito orgulhoso por não ter desistido, por ter se empenhado ao máximo.

Chegamos em casa e contamos as novidades do dia para Lúcia. Lucas fez questão de contar, entusiasmado, todos os detalhes.

– Eu fiquei meio triste, sabe mãe?, mas aí um amigo do papai veio falar comigo e não fiquei mais – Disse Lucas.

– Que amigo é esse? – Perguntou Lúcia

– Ele não é meu amigo. Pra falar a verdade, eu nunca o havia visto antes na vida. Por que você pensou que ele era meu amigo? – Perguntei

– Ele sabia meu nome, e como não o conhecia nem contei meu nome pra ele, pensei que talvez o senhor o conhecesse. – Respondeu Lucas

Lúcia olhou para mim em busca de respostas. Não consegui expressar em palavras o que me levou a deixar um completo desconhecido  falar com meu filho. Tentei lembrar das palavras que ele disse, como se o conhecesse a tanto tempo. Só havia uma explicação… Minha esposa jogou um olhar de ‘conversamos mais tarde’ e foi terminar seus afazeres.

Depois do jantar deitei na rede da varanda e acabei cochilando. Acordei quando a noite já ia alta no céu. Admirei as estrelas e o ar frio da noite me fez ir para dentro de casa. Olhei no relógio e este marcava 23:45. “Amanhã é segunda, todos devem estar na cama já.”, pensei. Peguei um livro na estante da sala e o levei comigo até a cama. Lúcia já dormia, e não quis acordá-la. Dei um beijo na sua testa e deitei. Pensei em tudo o que havia acontecido hoje. Tantas perguntas, poucas respostas… uma coisa leva a outra. Resolvi que amanhã escreveria sobre isso. Agora, é hora de dormir.

@Tahgore

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