Despertar


A primeira coisa que o leitor tem que saber é que ninguém nunca abre os olhos imediatamente ao acordar. Os segundos iniciais do despertar, ao meu ver, são uma das partes mais curiosas dos seres humanos. Trata-se de um processo bastante peculiar, no qual apesar do nosso corpo afirmar que está na hora de se pôr em movimento, nossa mente insiste em provar justamente o contrário, criando as mais variadas e esquisitas justificativas para te convencer a permanecer quietinho e  tentar voltar ao mundo dos sonhos, coisa que raramente acontece se for um sonho realmente bom.

A segunda coisa que o leitor tem que saber, é que ao acordar, nos deparamos com um mundo estranho. O que também é algo curioso, já que vivemos nesse mundo e teoricamente estamos acostumados a ele. O fato é que quando despertamos, somos puxados de volta á realidade, o que pode ser um choque para alguns que adorariam não ter que voltar à ela.

“Então eu acordei. Mas não abri os olhos. Apenas saí do estado de inconsciência, apesar de não mover um músculo sequer que pudesse comprovar que eu realmente havia acordado. Talvez eu ainda estivesse sonhando, mas não seria um bom sonho, pois eu não saberia que se tratava de um. No fundo eu sabia que havia acordado, mas algo tentava me convencer a acreditar no oposto. Foi aí que abri os olhos, semicerrados, mas abri. Fiz aquele clássico movimento de esfregá-los com os dedos e pisquei duas vezes. Algo me incomodava. Ainda deitado, fitava o teto, tentando lembrar do sonho que tivera durante a noite. Acho incrível como só conseguimos lembrar deles nos primeiros minutos, e logo depois, se esvaem tão rapidamente quanto apareceram. Era um sonho bom, algo me dizia que um outro alguém estava nele. O teto me cansou, e percorri com os olhos o ambiente ao meu redor: Fitei com olhar nostálgico todos os 97 livros que ficam na parte preferida da minha estante, lembrando carinhosamente de cada uma das histórias e o que de bom trouxeram pra mim; Observei detalhadamente a escrivaninha onde meu confidente e companheiro, o computador, reside. Lembrei das dores de cabeça que ele me deu, dos amores que silenciosamente testemunhou, dos segredos que confidenciou em arquivos criptografados, que já não fazem mais parte desse desktop; Passei os olhos nas fotos penduradas na parede, nos brinquedos que fizeram parte da minha infância, e que agora servem apenas como decoração, e no janelão que deixa tímidos raios de luz aventurar-se na penumbra. E fiquei assim até completar minha jornada de volta ao mundo real.

E veio. Não ocorreu de forma abrupta, eu só não havia me dado conta de que nunca deixou de estar ali. Aquilo me incomodava, angustiava, me desequilibrava. Me fazia querer desistir, de não insistir, ou até persistir. Me dobrava, me inquietava, e, por mais curioso que possa parecer, me acalmava. Eu sabia que tudo aquilo era momentâneo, puro ciúmes. Você me pertenceu, e entendo suas razões para não mais sê-lo.  Sou um alguém resignado, apesar de ainda te amar. Todas as palavras que usei e sei que te machucaram, perdoe-me por elas. Mas sou assim, e você me conhece muito bem.”

Meu celular avisa que chegou uma nova mensagem. Não era você, mas mesmo assim, o “bom dia, amor!” que recebi me lembrou que a vida continua. Afinal, não podemos mudar o passado, mas nada vai te machucar para sempre.

 

@Tahgore

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