Intruso


“EU NÃO GOSTO DE VOCÊ!”, gritou. Um silêncio sepulcral se forma na sala, sendo quebrado apenas pelo barulho da tv. Fico estático, sem reação. No começo pensei que seria apenas mais um daqueles discursos… nunca estive tão enganado. As palavras demoraram alguns segundos para se fixar na minha mente, encarei-o com um ar vazio, inativo. Ele continuava a falar, mais palavras duras. Aquilo machuca. Tento não demonstrar nenhum sinal de emoção. Vamos lá, você é mais forte do que isso. Reprimo a vontade de sair daquela mesa e me trancafiar de volta ao meu mundinho, sozinho, seguro. Mas continuo lá, em pé, ouvindo. Até que ele para. Não tinha mais nada a dizer. “DESSE ANO NÃO PASSA!” acrescentou.

Continuamos como se não tivesse acontecido nada, ninguém ousa pronunciar uma única palavra. Não importa, é sempre assim. Desde aquele dia… As ameaças de sempre, a conversa de sempre. A corda sempre arrebenta do lado mais fraco. O lado do intruso. Assim como a flecha lançada, as palavras pronunciadas nunca voltam atrás. O que está feito está feito.

O jantar acaba, recolho os pratos e subo as escadas. Sinto aquele nó na garganta, aquela vontade incontrolável de chorar. Não a contenho, e ponho-me a escrever esse desabafo ainda com lágrimas nos olhos.