Só, no meio da multidão.


Faltei aula pra poder ir ao médico. Tive uma noite cheia de dores e assim que foi possível me dirigi pra lá. Não vou citar o nome da empresa, cujo serviço é recordista no quesito reclamação por parte dos clientes, mas que conste aqui as quase DUAS horas que fiquei esperando para ser, enfim, atendido. Durante esse chá de cadeira fui pego de surpresa por um fato bastante simples, mas devido ao ambiente caótico que é uma central de atendimentos de emergência, passou despercebido pela grande maioria (ou talvez por todos) que lá estavam presentes.

Sentado na cadeira, esperava. Não havia qualquer aparelho nas paredes que indicasse as horas. Talvez a técnica funcionasse em shoppings centers, mas não numa sala de espera cheia de pessoas impacientes. Tentava evitar ao máximo olhar para o meu relógio de pulso a cada 5 minutos. Não é algo fácil quando se tem dores e a cura para elas está separada apenas por algumas paredes. Não pense muito nela, vai passar…

Era o programa da Ana Maria Braga naquele aparelho televisor. Fiquei em dúvida no que era pior: sentir as minhas dores ou assistir ao programa. Bom… Pelo menos poderia me distrair um pouco. Tentei prestar atenção ao que ela dizia, mas as outras dezenas de pessoas ao meu redor não estavam dispostas a colaborar. Agora, um senhor de idade um pouco avançada tocava com certa maestria um belíssimo piano de cauda, acompanhado por um jovem violonista. Não prestei bastante atenção, afinal o barulho na sala não permitia isso. Uma jovem, com idade provável na casa dos vinte e pouco, levante-se da mesma fileira de cadeiras em que estava sentado e posiciona-se logo abaixo da televisão. Para por alguns segundos, e tateia em busca de algo. Seus dedos encontram o botão de aumentar o volume. Ela o pressiona e seus olhos voltam para a tela. E ficou lá, durante o resto da apresentação, admirando a música suave e envolvente que saia dos alto-falantes. Dedos ágeis percorriam as teclas do piano, em sincronia perfeita com a habilidade com que as cordas do violoncelo eram tocadas. Um show musical magnífico, e que mais ninguém naquela sala, com exceção da minha pessoa e daquela jovem, prestava atenção. A última nota é tocada, o show se encerra. A jovem volta para a cadeira que anteriormente ocupava. Segundos depois é chamada para ser atendida.

Agora vos explico, meu caro leitor. O que aconteceu naquela sala de emergência passou despercebido por quase todos os que lá estavam presentes. A questão é que não damos a devida atenção a essas pequenas coisas. O simples fato de a moça ter aumentado o volume contraria a vários princípios sociais modernos. Costumamos dizer que a vida está ‘corrida’. Trabalhamos muito, estudamos em excesso (pelo menos os interessados). Ignoramos o ambiente ao nosso redor, vivemos em nosso próprio mundinho. Não importa o que aconteça. Você é somente mais um, sozinho, no meio da multidão.