Rapunzel Decide Morrer


Na Beirada

Do alto daquela estrutura de aço e concreto, a jovem observava a cidade barulhenta metros de distância abaixo. Ouvia buzinas esganiçadas e pessoas andando em ritmo frenético. Os sons da vida urbana sempre lhe renderam fortes dores de cabeça. Mesmo ali em cima na cobertura do edifício, onde julgava estar segura, o som do que os humanos costumam chamar de progresso a incomodava. Fechou com força a porta corrediça da varanda, separando-a do resto do mundo. O apartamento estava silencioso, como de costume. Isolara-se do mundo desde que recebera a notícia. No começo não acreditou, consultou médicos diferentes para confirmar. Quando enfim não havia mais dúvidas, pôs-se a chorar. Toda a sua juventude fora arrancada abruptamente, sua vida extirpada. Seus planos, que com tanto esmero criara, já não mais seriam postos em prática. Era o fim.

Enxugou uma lágrima que brotava no canto do olho e foi até o quarto. Não havia mais espelhos na casa. Desde que seu cabelo começara a cair mandou tirá-los todos. Aqueles longos fios loiros eram seu maior orgulho. Suportaria a dor do câncer matando-a por dentro, porém ver seu cabelo cair, com o tempo, era tortura demais.

Deitou-se na cama. Seu corpo estava cansado, a dor de cabeça só aumentava. Os remédios para aliviar a dor já não mais funcionavam. O médico recomendou que usasse morfina, em pequenas doses. Mas ela raramente usava. Todo o sofrimento que seu corpo sentia era uma forma de lembrar que ela ainda estava viva. Morrendo, porém viva.

Já fora internada três vezes no último ano. Na primeira seu coração parou de bater por alguns minutos. Passou um mês no hospital. Na segunda vez, seus pulmões falharam. Passou duas semanas no hospital. A terceira vez, a mais recente, foi por intoxicação. Conectara o escape do seu carro com o interior do mesmo, fechando a janela e trancando-o. O porteiro notou e, com urgência, quebrou o vidro dianteiro e a tirou de dentro. A ambulância não tardou a chegar. Ficara no hospital por uma semana, sendo transferida para um sanatório no interior por dois meses depois disso. Os médicos deram alta havia poucos dias, após enchê-la de antidepressivos e afastá-la do meio social. Deixaram-na sair, na verdade, por seu estado terminal. Um apelo do marido para que pudesse passar os últimos dias com ela bastou para que a liberassem.

Agora deitada, com os olhos abertos fitando o teto, refletia sobre tudo o que acontecera. Não a enganaram afirmando que iria sobreviver, pedira sempre que a contasse a verdade. Viver a ilusão da esperança era pior do que ter a certeza da morte eminente. Seu corpo estava cedendo, ela sabia que a hora chegaria logo. Foi atacada por uma onda de desespero que jamais sentira na vida. Ninguém realmente aceita a morte até o exato momento em que ela chega. Estava acostumada a ideia de que ela viria sorrateira, silenciosa. A morte, a fria morte! Não seria assim. Estava decidida em ir ao encontro dela.

Continua…