Bóreas – O Vento do Norte


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polaroidtagoreEsgueirava-se por entre ruelas obscuras, a passos largos e ponderosos. Mesmo à meia-luz daqueles becos imundos, acostumados a tal malevolência descarada, a presença daquela criatura desguarnecida de sombra e de feições indistinguíveis irrogava sua moléstia sobrenatural.  Perambulava sem rumo, desprovido de destino. Era a bússola que perdera seu norte, e apontava descompassada, em uma ânsia consternada, para o vazio da imensidão. A pouca luz que emanava das lâmpadas elétricas, solitárias no alto dos postes, logo não existia mais: com um último suspiro de sofrimento, seu fragor tornou-se audível, extinguindo todo o brilho que outrora possuíra.  A figura de semblante perverso não se combaliu com a súbita escuridão. Em sua essência corrompida, já não mais discernia entre o negrume do seu âmago e as trevas do mundo exterior. Desmerecera qualquer tipo de humanidade que algum dia já fora capaz de sentir. Era um organismo despretensioso, e disso não passava. Uma alma morta presa no castigo da carne, obrigada a vagar pelo mundo, lamentando o simples ato de existir.

Seu grito combalido ecoou entre as pedras corroídas da rua e os tijolos dos casebres maltrapilhos, em resposta à súbita convergência soturna. “Destitua-me, oh! Escuridão! Destitua-me do castigo da carne! Pois já morto D’alma, aguardo sê-lo de corpo! Impele-me de volta ao útero de Gaia, por ser minha única incumbência terrena servir de iguaria aos vermes.”

E eis que o Vento do Norte, com sua voz fria e violenta, desprovida de corpo, emanando de todo e lugar algum, retruca as lamentações daquele ser desprezível. “Sois vós que suplicais ao vazio, um filho de Adão, digno de ter suas dores aliviadas com a mais nobre das benções concedidas ao homem?”

Como há muito ansiava por aquilo, pôs-se logo em resposta. “Não mais sigo a razão dos homens. Meus atos obscuros roubaram toda a humanidade que um dia existiu dentro de mim. Padeci aos poucos, em punição. Agora nada mais me prende neste mundo. Vivo apenas para, enfim, ser envolto nos braços do Anjo da Morte.”

Numa lufada voraz, Bóreas arrastou aquela alma morta para as profundezas, livrando-a daquela existência ínfima de osso e carne, enquanto tomava para si as palavras do Corvo ao amante desiludido.  “Não mais!” – vociferou – “Não mais!”.