Nem sob tortura subo em um Pontal/UFAL outra vez na vida.


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Há quem diga que os usuários de ônibus da capital são verdadeiros heróis. E de fato o são. Se Hércules vivesse nos dias atuais, tenho certeza absoluta que um dos 12 Trabalhos propostos por seu pai, Zeus, seria ter que usar diariamente o sistema de transporte público de Maceió. Derrotar a Hidra e as suas sempre crescentes cabeças não é nada comparado a entrar numa fila em pleno Centro, na hora do rush, para competir por uma vaga em um Eustáquio Gomes (sempre aparece alguém na sua frente e te rouba a vez). Limpar os Currais do rei Aúgias, que há trinta anos não eram limpos, e exalavam um gás mortal, não chega nem perto de pegar um Forene/Mercado lotado, cheio de trabalhadores suados. Mas nem mesmo o bravo Hércules, com sua força e coragem sobre-humanas, se arriscaria a entrar em um Pontal/UFAL. De todos os ônibus que circulam aqui na cidade, esse é, de longe, o pior deles.

 PONTAL/UFAL

 Um destino. Era isso que tinha: sair do Centro de Maceió para chegar na UFAL. Eu não possuía opções de ônibus, sou leigo quando o assunto são rotas. Duas me vinham à mente: Eustáquio Gomes/Centro e Pontal/UFAL. Subi no primeiro que passou. Azar meu, não era o Eustáquio Gomes.

Não sei se, a esta altura, posso me considerar sortudo por ter pego um lugar vago e poder ir sentado. Talvez, se tivesse ido em pé, não precisasse ter passado por tamanho trauma.

O trânsito da Fernandes Lima, como sempre, estava caótico. Mas eu não me importei. Nos fundos, algum funkeiro expressava para quem quisesse (e também para quem não quisesse) ouvir sua preferência musical. Mas eu não me importei. Alguém batia insistentemente com os pés no chão. Eu também não me importei. Uma barata desfilava pelo acolchoado da cadeira à minha frente. Aí sim, eu me importei.

Não tive muito tempo para pensar: várias outras pessoas começavam a bater, em uma sinfonia não orquestrada, com os pés no chão. Algumas outras, em clara demonstração de coragem, tiravam seus chinelos e davam pancadas nas paredes: o ônibus fora invadido por uma gangue de baratas. E pior: o ninho estava na cadeira do outro lado do corredor. Várias pessoas se levantaram, em claro desespero, e cobravam do motorista que este abrisse as portas traseira para que elas pudessem descer. Outras (provavelmente as que só tinham a passagem de ida e volta) matavam as baratas na esperança de que infestação fosse controlada. Pobres iludidos. A cada barata que era morta, outras 3 surgiam. Nem Hércules daria conta de tantas ao mesmo tempo. Eu não perdi tempo: fui no embalo dos que exigiam ao motorista que abrisse as portas, queria sair daquele lugar. E desci, para longe daquele Pontal/UFAL infestado de baratas.

Eu sempre tive uma aversão particular aos insetos. Não tenho nada contra eles, apenas não gosto que vivam perto de mim. No caso das baratas, confesso que desenvolvi uma admiração pessoal após a manifestação no ônibus: se assim como elas eu fosse diariamente obrigado a andar em um Pontal/UFAL, mesmo que sem pagar nada, eu também me revoltaria.

ATUALIZAÇÃO:

 Há um grupo dentro do TRANSPAL que, após a minha denúncia, ficou chocado com o ocorrido e afirmaram, em nota, que iriam tratar do caso com urgência.

Acharam um absurdo as baratas não pagarem os R$2,30 da passagem.

Tágore Cavalcante