Na Gaiola com Valesca


polaroidentrevista???????????????????????????????

“Valesca não é para qualquer um”. E essa é a primeira coisa que você precisa saber sobre ela. E quando digo ‘qualquer um’, não falo somente dos que tem aversão ao Funk, dos machistas descarados, ou dos pseudomoralistas. Não, Valesca incomoda muito mais gente com suas letras carregadas de erotismo, suas curvas provocadoras e seu bumbum avaliado em 5 milhões de reais. Se diz feminista, tem letras controversas e polêmicas, não tem papas na língua e defende a liberdade e igualdade de direitos, para homens e mulheres, do sexo a vida profissional.

A segunda coisa que você precisa saber é que passou o tempo em que se marginalizava o funk, que o ligava a criminalidade e a banalidade. O estilo, e Valesca, consequentemente, vêm se tornando símbolos de liberdade e esperança para os moradores de comunidades e ganhando o Brasil e o mundo, fora das favelas. Ela é mãe, mulher, subversiva, não aceita ser produto de mercado, adora dar sua opinião, antenada e vai até o chão com a mesma facilidade que a gente anda pra frente. O Blog Dois Reais apresenta Valesca Popozuda: No caminho perigoso entre o feminismo, liberdade e pornografia. O que delimita isso? Odiada por algumas feministas, idolatrada por outras, defensora da Marcha das Vadias, madrinha gay, um símbolo de liberdade ou um símbolo de libertinagem? O que caracteriza isso? E o funk!? É cultura? Agrega valor? Hierarquiza-se a cultura? Encontre as suas respostas, mas venha sem preconceitos.

Valesca foto

Dois Reais – Valesca Popozuda, bem vinda a Maceió! É um prazer tê-la conosco e uma honra entrevista-la nesse momento tão importante da sua carreira e da sua vida. O Blog Dois Reais é um Blog voltado mais para a literatura e textos que façam com o que o leitor discuta, pense, responda, se manifeste, então a nossa abordagem é bem diferenciada. Para começar, que impressões você teve e está levando de Alagoas, de Maceió?

Valesca – Boa noite! O prazer é todo meu. Ahh bom, foram maravilhosas. Eu conheço um pouco, não pude curtir muito pelo horário que eu cheguei, mas o carinho com que eu fui recebida, pelos meus fãs, popofãs, foi incrível. Mas eu fui conhecendo Alagoas através do twitter. Os fãs foram dando dicas, das praias, de locais pra conhecer e eu espero voltar, com tempo para conhecer cada pedacinho. Adorei o artesanato! E Alagoas me recebeu tão bem que lotou o show, a boate Havana vibrou, ferveu e foi um momento único.

Dois Reais – Como foi a transição da era “Gaiola das Popozudas” para a carreira solo?

Valesca – Bom, assim… Quando se fala em despedida é meio assim… sinistro né? Mas não é uma despedida. É que eu chegava aos lugares e as pessoas não apresentavam como “Gaiola das Popozudas”, falavam de Valesca Popozuda. E o grupo estava ficando para trás. E eu não queria isso e as meninas também não. Foi um trabalho que nasceu forte e eu não podia deixar ficar pra trás ou morrer. Então foi quando eu decidi fazer minha carreira solo e colocar minha irmã pra assumir a gaiola das popozudas. Chegou a hora, chegou o momento e vamos lá! A gaiola continua, eu vou estar sempre perto.  Minha irmã Jéssica assume meu lugar. Eu venho aí com a minha carreira solo com muito funk, com muito fervo e a Gaiola também com muita força.

Dois Reais – O Cenário do Funk Carioca era repleto de homens e você, notoriamente contribuiu para mudar isso. Você tornou o funk acessível para as mulheres. Fale um pouco sobre isso e sobre preconceito.

Valesca – Acho que o preconceito existe de vários lados, acho que todo mundo acaba sofrendo um preconceito. Não só a mulher, mas todos. Eu acredito que há barreiras e a gente tem que pensar em crescer, vencer o preconceito. Quem tem preconceito, tem titica de galinha na cabeça. Pra mim todo preconceito é burro. Eu sei que existe, mas nós mulheres mudamos muito isso. Tem a Valesca Popozuda, a Gaiola, mas tem outros grupos femininos, outras Mc’s, sempre fazendo o nosso funk crescer.  Tem os homens também, homens também sofrem preconceito. Mas com as mulheres é maior porque ela tá ali, mostrando o corpo, se expondo. Mas é uma forma de trabalho.  Nosso funk cresceu muito, hoje tem o Bonde das maravilhas, tem o Naldo, tem a Anitta e vai surgindo. Preconceito sempre vai existir, porque a gente nunca vai agradar a todos. Nem Deus agradou, então não vou ser eu nem ninguém que vai. Sempre vai ter crítica, positiva e negativa. As boas são melhores, mas eu já estou acostumada com as ruins. (risos) Não me abala mais. O que foi, foi. Quer falar fale. Quanto mais fala mais minha bunda cresce. E fale mal, fale bem, pelo menos estão falando de mim e eu nunca saio da mídia.

Dois Reais – E essa história de seguro de bumbum?

Valesca – Bom, isso foi em 2010. Onde meu seguro valia 5 milhões. (nossa!) Foi quando eu declarei que eu tinha posto uma prótese no bumbum. E as pessoas começaram a falar, a mídia trouxe a tona. Eu declarei para os meus fãs – que gostam de ficar sabendo o que a gente tá fazendo, o que a gente não tá. Isso é uma bobeira, tem nada demais. Vou falar, eles querem saber. – Tava nem aí! Então como ficou muito visível na mídia, foi um ‘Boom’ colocar meu bumbum no seguro, aí eu assumi e essa história se espalhou. Mas sim, é verdade.

Dois Reais – Valesca, é além de fanqueira uma mulher, um ser humano que tem opiniões e sentimentos. Começando a falar sobre isso, existe um lado social de Valesca que poucos conhecem. Você tem uma relação próxima, por exemplo, com o complexo do Alemão e nessa páscoa você esteve lá distribuindo ovos de páscoa na comunidade. Como começou essa relação e o que ela representa?

Valesca – então, não só com o complexo do Alemão, mas com todas as comunidades do Rio de Janeiro e do Brasil. A Gaiola das Popozudas começou no Complexo do Alemão e na Rocinha. Eu Valesca como fanqueira, como pessoa, sempre gostei das comunidades e de ajudar. Meu trabalho começou ali e eu devo todo o carinho com que eles me recebem quando eu chego no complexo… em qualquer comunidade. Eu gosto muito de tá presente. É na páscoa, dia das crianças, natal, todas as datas comemorativas e quando não tem data eu tô sempre ajudando de alguma forma. A gente tem que pensar que o funk nasceu e cresceu ali na comunidade. E ate hoje, se hoje eu tô fazendo sucesso eu agradeço a eles. Nenhum fanqueiro pode bater a porta na cara das comunidades. Eu preciso das comunidades até hoje. Nós precisamos. Eu seria uma ingrata se não ajudasse as comunidades. São elas que me fortalecem, são elas que tocam as minhas músicas. Antes de vocês ouvirem aqui fora, antes de ir pra TV, antes de tocar nas novelas, tocava lá. E eu amo e preciso de todas as comunidades.  Eu sou grata eternamente. Até porque a Gaiola começou lá e eu comecei todo o meu trabalho lá.

???????????????????????????????

Dois Reais – Família para Valesca.

Valesca – Minha família sempre foi tudo na minha vida. Meu filho, minha mãe, meus irmãos, são tudo. Pode faltar qualquer coisa pra mim, mas não pode faltar nada pra eles. Eles estão em primeiro lugar. Meu filho em primeiro lugar. Eu não quero dar o luxo, eu sempre falo, eu não quero dar o luxo, mas não quero que falte nada pra eles. Então eu quero dar o necessário pra que eles vivam bem, tenham conforto. Minha família é o que eu mais amo, de paixão!

Dois Reais – Mudando um pouco de assunto, o Brasil inteiro ficou sabendo e opinou sobre a dissertação “My Pussy é o Poder”. Qual foi sua reação ao saber da dissertação, como aconteceu?

Valesca – É. Foi a Mariana que passou em segundo lugar com a dissertação “My Pussy é o Poder”. Nossa! Eu acordei e toda vez que eu acordo eu tenho a mania – e acho que não sou  só eu né? (risos) Eu tenho a mania de acordar e ir direto para o twitter e ler as notícias. Aí eu peguei o Ipad e quando eu tava nos sites tinha falando: Valesca inspira aluna em mestrado, aluna passa em segundo lugar falando da música My Pussy é o poder e sobre feminismo. Gente que bafo! Foi uma coisa que veio assim, um arrepio eu disse: caraca! Eu preciso falar com ela. Tenho que agradecer né!? Uma música que foi gravada há anos e ela vem trazer agora como objeto de estudo. Uma música que até hoje faz sucesso. Eu me senti como uma criança que tivesse ganhado seu primeiro pirulito. Feliz da vida, eu chorei de emoção, pedi o telefone dela pelo twitter, liguei pra ela. Agradeci muito! Nós gravamos o “Esquenta” juntas, vai passar ainda. Eu só tenho a agradecer pelo carinho, pelo presente, porque é um presente. Com tantas fanqueiras no mundo, ela escolheu a Valesca Popozuda. Um presente de Deus. Eu agradeço a ela, aos meus fãs e a todos da UFF – Universidade Federal Fluminense. Obrigado pelo carinho!

Dois Reais – Como você se coloca com relação às palavras duras, até de mulheres, pessoas na mídia sobre seu comportamento e sobre o preconceito, ainda existente com o funk?

Valesca – O preconceito é burro, como eu já disse. É falta de amor e de coragem. Ninguém pode ser julgado pela maneira como se veste, como dança, se beija dois. Se um homem beija duas ele é garanhão, quando isso vai mudar? E eu não vejo nada mais livre que uma mulher dançando como quer e cantando sobre liberdade sexual e de comportamento. É o que eu tenho pra dizer. E sobre o funk, o funk tem muito pra dizer e representa muito para a cultura do Brasil. O funk fala por si e é tão importante quanto qualquer outro gênero musical que tenha nascido do povo, de maneira autêntica.  A discriminação do funk e da mulher precisam ser combatidas. Assim como o preconceito contra homossexuais, negros, o mundo só vai ser melhor quando cada um respeitar o outro, sem querer adequá-lo.

Dois Reais – Você está voltando de uma turnê na Europa (A funkeira passou pela França, Itália, Suíça, Holanda, Bélgica, Alemanha e Inglaterra), como foi curtir o carinho dos fãs fora do Brasil? O público dos seus shows foi inteiramente brasileiro ou você também cativou fãs europeus?

Valesca – Tô voltando e vou de novo agora. (risos) A gente já tinha ido, é a terceira vez. E agora, graças a Deus eu vou novamente, tem vários shows marcados. E eu conheci outros lugares que eu não conhecia como Paris, Bruxelas, Amsterdã. E é muito mágico. Você não sabe como vai ser a recepção, a maioria são brasileiros, mas você não sabe como vão te receber. Te dá um friozinho na barriga,  aí você sobe no palco e vê todo mundo cantando todas as suas músicas, caindo dentro. Um público imenso. Ai você fala “já sabe dessa música, já sabe aquela”, caraca! Foi um carinho tão grande! E agora em Agosto eu volto pra Europa e Estados Unidos também.

Valesca artesanato

Dois Reais – Essa turnê também rendeu filmagens para o documentário “Valesca: Da favela para o mundo” o que é o documentário? Tem data prevista pra ser lançado?

Valesca – É um documentário que eu já comecei a gravar. Vai ser gravado também no complexo, na rocinha, em todas as comunidades e fala de como surgiu a gaiola das popozudas, de onde saiu a Valesca, de como começou esse trabalho, essa luta de anos. Tem muita, muita coisa no documentário. Agora eu conto com o apoio da galera da UFF que tá me ajudando nesse projeto. A galera de cinema que é uma força a mais. Aí eu viajo pelo mundo, vou gravando cenas… Vai ser um documentário bem forte. Bem marcante. Vem pra ficar.
Acredito que em 2014 a gente fecha. É tudo um laboratório, é trabalhoso, a gente quer fazer uma coisa bem feita, com muito carinho. Então a gente vê, revê, dez, quinze vezes. Pois é como eu falo, quando sai alguma coisa de Valesca Popozuda, tem que ser fervo, tem que ser caliente, tem que ser com gostinho de quero mais.

Dois Reais – Sobre o seu repertório, ele é bem variado. Tem “Ilariê”, tem “Malandragem”, tem “Lua de Cristal”, então quais são as suas referências e o que Valesca Popozuda anda ouvindo?

Valesca – Ah… eu escuto de tudo um pouco. Eu escuto Hip Hop. Eu escuto pagode, escuto meu funk. Eu estou ouvindo Beyoncé, Adele, Rihanna. Nos meus shows eu trago o que os meus fãs gostam, músicas bem variadas, pra que seja um show dinâmico: hoje é uma coisa, amanhã é outra… tiro uma música, ponho outra, sempre me atualizando pra dar o melhor para os meus fãs.

Dois Reais – Finalizando, que mensagem você deixa para seus fãs alagoanos? Eles te receberam de maneira vibrante, lotaram a Havana Club, gritaram, deram presentes, que mensagem você deixa para eles? E para as meninas de comunidades também, que tem o sonho de seguir carreira no funk?

Valesca – Então, pra galera de Alagoas, meus popofãs alagoanos, agradeço desde sempre o carinho. Quando eu chamo de popofãs é uma maneira de retribuir sempre e dizer que se eu tô aqui até hoje, é por causa deles, eles que me fazem crescer, são eles que me incentivam, incentivam meu trabalho, são eles que me botam pra cima.
As vezes eu estou triste, aí o meu refugio é o twitter. (risos) Eu não posto “Eu tô triste hoje”, “Estou chateada”, nunca. Eu sempre converso. É uma maneira de eles me consolarem, mesmo sem saber. A gente vai falando, eles mandam mensagens também e vão passando horas e horas ali. E quando eu vejo, passou o tempo e eu já tô bem. Eles me fazem me sentir bem sempre. Que não desistam nunca. Tem os fãs que vem atrás de mim… eu costumo dizer que eu não tenho um jatinho, mas fãs de fã-clube tem um jatinho, por que eu vou pra uma cidade, quando eu chego eles já estão lá. E é de Alagoas, de Recife e vão acompanhando. E quando eu falo que eu, Valesca, gosto de ter essa proximidade é porque eu gosto mesmo, eles sabem disso e eu não tô enganando ninguém. Não é da boca pra fora. Eu gosto de estar com eles, eles me fazem bem e eu sei que eu os faço bem também. Não tem coisa melhor. É uma relação de respeito, dedicação e carinho, é quando eu posso dizer que eu sou uma menina-mulher abençoada, por Deus, pelos popofãs e por vocês da imprensa. Um beijão!

Keep Calm e deixe de recalque!

Agradecimentos especiais:
Agradecemos a Boate Havana pelo apoio, ao top promoter Cristiano de Barros e ao amigo Alexandre Cavalcante. A diva Valesca, nossos agradecimentos pela simpatia e carinho com que nos recebeu.

Valesca lança Beijinho no Ombro -> Ouça a Música

Uma Matéria de Maylson Honorato e Tágore Cavalcante