Todas as Pequenas Coisas


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cadeira

                                 

A pressa, o tempo, o relógio, a hora, nos consomem… o horário marcado, centenas de compromissos, nos consomem. O tempo não perdoa quem não sabe aproveitá-lo e, hoje em dia, quase todos nós estamos imperdoáveis. Quantas pessoas não morreram hoje sem realizar metade das coisas que queriam realizar, sem dizer metade das coisas que queriam dizer? Quantos não se entregaram ao além sem escrever o poema, o texto, a canção que passou a noite planejando, sem por em prática o plano infalível, sem libertar seu gênio aprisionado? Fico imaginando para onde vão as ideias, os sonhos, as esperanças, os horários de quem partiu… acho que ficam vagando entre nós. Ficam por aí, invisíveis, invisíveis na vida e na morte. Talvez gritem, chorem, clamem para que algum de nós estenda a mão no ar e agarre um deles, e assim eles sejam. Mas ninguém fará isso. Até o fim dos tempos, se houver, eles, essas coisas, ficarão vagando por aí, intangíveis, invisíveis… inúteis? Vão estar nos assombrando, essas pequenas coisas, assombrando nossas vontades, nossos anseios, sonhos, a nós. Quanto a nós, nos cabe continuar vegetando, até mais que aqueles que estão em coma. Muita gente passa a vida inteira em coma, ou passa a morte inteira? De que se constitui a vida, o que realmente é importante? Este é um monólogo de perguntas?!

Pequenas coisas são as que eu quero fazer para mim. Pequenas, no entanto, tão fundamentais. Minhas coisas efêmeras, meus textos, minhas músicas, minhas palavras. Sim. As palavras. As palavras que eu quero dizer para você. A sala que eu quero planejar com você, arrumar com você, bagunçar com você. As pequenas e importantes coisas que quero cultivar com você. “Você”, ainda tão intangível, quanto as coisas de quem já morreu. Tão distante quanto um plano defunto. “Com você”, que nem existe.

Vai ficar vagando no ar, todo esse amor e essa vontade que tenho de cuidar. Ficará assombrando você, que não se deixa amar, que não se deixar arder de paixão – para não chorar. Ficarão no ar as suas lágrimas preservadas e ficarão eternamente, mantendo úmidos os quartos de quem se isola, fazendo mofo.

Eu tive um sonho essa noite.

Sonhei com uma casa de fachada amarelo queimado e azul, meio colonial. A gente entrava, havia móveis dentro de caixas, alguns ainda desmontados. Você tirava um cd da bolsa: O melhor de Diana Ross. Me beijava e sorria enquanto ela gritava “Estou saindo, estou saindo!”. Íamos montando as coisas, combinando onde ficaria aquele sofazinho marrom, aquelas flores artificiais, a sua coleção de discos. As paredes era de um amarelo bem clarinho… o sol que entrava deixava tudo muito claro. Eu conseguia enxergar tudo. Eu conseguia seguir feliz para arrumar a cozinha, pegar vinho para nós. Tudo estava ficando lindo, mas eu olhei para trás, para você que não tinha rosto.

Eu me desesperei.

Você tirou uma ampulheta de dentro de uma caixinha. Eu sentei numa cadeira, olhando atordoado para o borrão da sua cara. Deixava a água do aquário salgada, sem me conformar… eu já sabia que era sonho.

Acordei e Diana continuava gritando “estou saindo, estou saindo…”!

Maylson Honorato