Sobre ser cheiro, ser cor.


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Um dia acordei com vontade de ser cheiro: suspenso no ar, livre, invadindo a imaginação das pessoas e provocando as mais diversas sensações: quando eu fosse doce, faria abrir um sorriso largo na senhora, ao passar por mim, e lhe viesse à memória as distantes manhãs de domingo na cozinha da sua avó, saboreando verdadeiros milagres culinários; faria lembrar um amor empoeirado pelo tempo, quando meu cheiro fosse forte, e o coração da moça, esperando sua vez no ponto de ônibus, apertaria,  recordando aquilo que teve de deixar pra trás; e quando eu fosse suave, as lágrimas seriam as primeiras a brotar no rosto daquele senhor solitário, ao fitar seus olhos carregados de saudades numa fotografia já gasta pelo tempo, da única mulher que amou na vida.

Mas descobri que viveria invisível aos olhos daqueles que amo, e por mais que quisesse ser cheiro, não suportaria passar o resto dos meus dias assim.

Então resolvi ser cor. Vivo, vibrante, notável. Uma para cada momento: azul para os dias de preguiça, amarelo para os dias de sol, cinza para os dias de chuva… Assim posso provocar sensações, mas não serei invisível. Eu sou cor!

Tágore Cavalcante

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